





Entervista com Marquinhos Nô
AR- Nô fale um pouco sobre a sua história.
Nô – Meu nome é Marco Antonio Pereira Nô, sou natural de Itabuna, ao contrário do que muita gente pensa, não sou de Brasília. Saí daqui ainda criança, meus pais se separaram e eu e mais duas irmãs ficamos com meu pai, e minha mãe levou uma de colo. Nós perdemos o contato de minha mãe, só reencontrando após dezenove anos.
AR- Como surgiu a arte em sua vida?
Nô – Ainda criança eu lembro que assistia a uma novela chamada “O Casarão” da Rede Globo, e ficava fascinado, enlouquecido por aquilo, daí eu copiava tudo e no outro dia usava minhas irmãs como cobaias. Apresentávamos tudo como acontecia no capítulo anterior. Na verdade eu já interpretava sem saber.
Mas, foi em Brasília que eu conheci literalmente o teatro. Eu era office-boy do Ministério da Educação, quando pintou a oportunidade de fazer um curso de teatro patrocinado pelo MEC. Um desses cursos foi de maquiador e caracterizador. Houve um teste para transformar uma atriz de vinte anos em uma personagem de oitenta. Várias maquiadores participaram do teste e eu fui o único selecionado. Como eu sou muito atento a tudo, eu acompanhava a montagem do espetáculo para qual eu fui selecionado como maquiador. Sabia todas as marcas e todas as falas dos personagens. O ator principal sofreu um acidente, e ficou impossibilitado de atuar. Os diretores e os produtores se reuniram para ver se cancelavam a peça ou se abriam leitura para escolher um novo ator. Decidiram por abri a leitura. Quem estava lá na frente da fila? Eu, é claro, não ia perder um oportunidade dessas. A primeira pergunta que me fizeram: tem experiência? Claro! foi minha resposta. Menti deliberadamente, mas por uma boa causa. Estreei a minha primeira peça “Os Farsantes” o título sugestivo para a minha mentirinha.
AR- Depois de “Os farsantes” você voltou para Itabuna?
Nô – Não, fiz vários outros espetáculos em Brasília, e fiz um concurso para o Ministério da Educação, quando no refeitório encontrei Otan de Carlo, um diretor de teatro que havia conhecido há algum tempo. Ele me disse que teve a déia de montar o “Teatro Mambembe” e que pensou em meu nome para acompanhá-lo pelo Brasil, mas como eu era funcionário do MEC, ele desistiu. Daí eu perguntei, “ você pensava no meu no meu nome ou ainda pensa? ” como a resposta foi positiva, foi a conta de pedir demissão e viajar pelo pais fazendo teatro com o grupo RODOTEATRO.
AR- Então você viajou pelo pais inteiro, fazendo o que você realmente gostava, foi um sucesso essa sua trajetória?
Nô- Começou bem, mas eu levei minha irmã mais nova que estava sobre minha responsabilidade, daí o diretor e ela não se entenderam, e ele nos abandonou m Vitória do Espírito Santo.
Nós conseguimos um trabalho num circo que era patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado. Eu fazia dublagem de Ney Matogrosso e minha irmã fazia dublagem de uma cantora internacional e em troca disso nós dividíamos uma marmita por dia. Um belo dia veio assistir ao espetáculo a coordenadora geral do projeto. Terminado o show ela veio falar comigo, dizendo que adorou meu trabalho e que gostaria de contratar a mim e a minha irmã para que nós pudéssemos ter uma grana para nos mantermos por lá.
Nô – Na realidade eu passei um bom tempo em Vitória onde eu era muito atuante nos sindicato dos artistas e me envolvia em vários movimentos. Mas precisei voltar para Brasília por causa da morte de meu pai. Depois que resolvi tudo por lá, tive que voltar para Itabuna para ver a questão de herança. Chegando aqui, procurei logo ver como estava a cultura local. As informações não foram muito boas, isso na década de 90.
Eu voltei muito empolgado querendo realmente fazer a diferença. Logo montei meu primeiro espetáculo, “Entre teias e aranhas” com um grande elenco. Daí não parei mais.
AR- Como surgiu a idéia dos fantoches e das esculturas?
Nô – Eu sou muito inquieto, eu não consigo ficar parado. As coisas que eu gosto, mesmo que eu não saiba fazer eu vou pesquisar, estudar. Foi o que aconteceu com os fantoches. Eu nunca tomei curso algum para aprender a fazer os bonecos, mas fui pesquisando e hoje é uma das minhas fontes de renda. Já as esculturas, eu faço com menos intensidade, mas sempre tenho uma ou outra sempre a mão, para o caso de aparecer um trabalho ou um festival, a exemplo do Multiarte Firmino Rocha que eu participei. Não sei porque foi retirada esta modalidade do festival, espero que volte.
AR- Fale um pouco sobre seu trabalho a frente do TEG
Nô- O Teatro de Experiência Grapiúna é um grupo fundado por mim, que fez no dia 15 de janeiro, exatamente quinze anos. Apesar do nosso pouco tempo, já temos um vasto currículo com vários prêmios e participações
AR- Você diz que se esforça para manter os integrantes do seu grupo longe das drogas e das ruas. Você tem apoio para desenvolver este trabalho social?
Nô – Tenho, de Deus. É difícil lidar com cultura. As instituições que fomentam a cultura na realidade não o fazem. Pratica-se muito o assistencialismo, e projetos sérios não são avaliados com imparcialidade. Mas nem por isso eu deixo de realizar meus trabalhos. Compro em feira de cacarecos, parcelo em várias vezes e vou embora. Não deixo de montar um espetáculo por falta de patrocínio. Tenho hoje cerca de trinta jovens no grupo, e eu sei que eles precisam de mim, por isso não vou decepcioná-los.
Nô – Itabuna é a cidade que eu escolhi para fincar minhas raízes. Viajei pelos quatro cantos do Brasil fazendo arte, mas voltei. Eu espero que a cultura seja levada a sério. Não é só a construção de prédios que representa progresso. Uma cidade sem história é uma cidade morta culturalmente. Mais como grapiúna que eu sou , eu tenho certeza que Itabuna dará um pulo, mas para isso, nós artistas e a sociedade em geral precisa cobrar das autoridades mais afinco e ações para que nossos crianças tenham uma Itabuna melhor.
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